Quarta-feira, 15/07/26

Dólar cai 1,06%, para R$ 5,0778, após deflação nos EUA em junho

Dólar cai 1,06%, para R$ 5,0778, após deflação nos EUA em junho
Dólar cai 1,06%, para R$ 5,0778, após deflação nos EUA – Reprodução

São Paulo, 14 – O dólar exibiu queda firme frente ao real nesta quarta-feira, 14, e fechou abaixo da linha de R$ 5,10 pela primeira vez desde meados de junho. O mercado doméstico de câmbio acompanhou a onda global de enfraquecimento da moeda americana, desencadeada pelo resultado da inflação ao consumidor nos EUA em junho, que esfriou as apostas em alta de juros pelo Federal Reserve a partir de setembro.

Após a arrancada dos últimos dias, as cotações do petróleo arrefeceram o ritmo de alta, na esteira da decisão do presidente Donald Trump de abandonar a ideia de cobrança de pedágio no Estreito de Ormuz. O contrato do Brent para setembro subiu 1,72%, a US$ 84,73 o barril. No mês, ainda sobe dois dígitos.

Sem um recrudescimento adicional da aversão ao risco, o real se beneficiou da perspectiva de termos de troca mais favoráveis com os novos níveis do petróleo, exibindo o melhor desempenho entre as divisas mais líquidas. Além disso, a menor volatilidade estimula as operações de carry trade.

Em queda desde a abertura e com mínima de R$ 5,0662 pela manhã, o dólar à vista terminou o dia em baixa de 1,06%, a R$ 5,0778 – menor valor de fechamento desde 16 de junho (R$ 5,0867). A moeda americana recua 1,65% em julho, após avanço de 2,38% no mês anterior. As perdas no ano são de 7,49%.

Para o head da Tesouraria do BS2, Ricardo Chiumento, o otimismo com a deflação nos EUA tende a ser temporário, uma vez que o petróleo subiu mais de 10% no início desta semana e tende a contaminar as próximas leituras de inflação.

“O alívio na inflação em junho foi em itens voláteis, como os preços dos combustíveis. Com a volta do conflito no Oriente Médio, isso tende a ser revertido”, afirma Chiumento, ressaltando que o próprio presidente do Fed, Kevin Warsh, disse nesta terça que a batalha contra a inflação ainda não está encerrada.

Indicador mais aguardado da semana, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos EUA recuou 0,4% em junho. A mediana de Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) apontava deflação de 0,1%. Já o núcleo do CPI – que exclui itens voláteis, como alimentos e energia – manteve-se estável na passagem de maio para junho, abaixo da mediana de alta de 0,2% do Projeções Broadcast.

Sob o impacto do CPI de junho, o índice DXY – que mede o comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – voltou a romper o piso dos 101,000 pontos e rondava os 100,950 pontos por volta das 17h, após mínima de 100,607 pela manhã.

As taxas dos Treasuries recuaram, com o retorno do papel de dois anos, mais ligado às apostas para os próximos passos do Federal Reserve, chegando a operar abaixo da linha de 4,20%, com mínima de 4,1514%. Ferramenta do CME Group mostrou redução das chances de alta dos juros em setembro, de cerca de 73% para cerca de 60%

Para o economista sênior do Commerzbank, Christoph Balz, a estabilidade do núcleo do CPI em junho sugere que a inflação já atingiu seu pico e tende a arrefecer, apesar de possível alta dos preços da gasolina em julho com o avanço do petróleo.

“O resultado do CPI é favorável à nossa visão de que o Fed não deve subir os juros. A partir de meados de 2027, a inflação mais baixa provavelmente desencadeará cortes nas taxas”, afirma Balz, em nota.

Bolsa

O Ibovespa percorreu a sessão em alta, que foi mais firme pela manhã desta terça-feira, 14, perdendo um pouco de fôlego no decorrer da tarde dada a maior volatilidade nos preços do petróleo, mas conseguindo retomar o nível de 176 mil pontos. O sinal positivo foi amparado mais um vez pelo cenário externo, diante do alívio na expectativa de alta de juros nos Estados Unidos e melhora na percepção de risco geopolítico.

O avanço mais firme se deu ainda na primeira etapa, quando o índice chegou aos 177 mil pontos, sob o impacto da inflação americana abaixo do esperado pelos analistas. O índice de inflação ao consumidor (CPI, em inglês) caiu 0,4% em junho, aquém do consenso (-0,1%), enquanto o núcleo, que mostrou estabilidade, também surpreendeu, contrariando a mediana das estimativas de alta de 0,2%. A leitura dos números esfriou a aposta de aperto monetário pelo Federal Reserve em setembro.

Economistas do Bradesco destacaram que, além do número cheio, que a composição do índice também foi favorável. “Junho é o sinal mais limpo desde o início do processo desinflacionário – amplitude, tendência central e habitação na mesma direção ao mesmo tempo, pela primeira vez”, observam os profissionais, para quem, a depender do índice de preços de gastos com consumo (PCE, em inglês), o CPI satisfaz “a condição que Waller havia articulado para reabrir o debate sobre cortes”. “Para o Fed, o número deve trazer alívio no curto prazo e deixar o BC em modo de espera”, acrescentam. Ontem, Christopher Waller, diretor do Fed, havia alertado que poderia ser necessário aumentar juros se o núcleo do CPI desta semana fosse alto.

Já o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, afirmou que “missão cumprida” não é sua visão após o CPI vir abaixo do esperado e que ainda há muito o que fazer para que “tudo esteja bem”. Reiterou ainda que está “redobrando” o compromisso com meta de 2%.

“O grande tema do dia é a inflação americana”, resumiu Matheus Spiess, economista da Empiricus. “Por mais que a gente ainda tenha novos episódios de escalada no Oriente Médio, que por sua vez trazem consigo nova pressão sobre preço de energia e sobre a curva de juros, a gente tem um contexto minimamente mais promissor”, diz.

Enquanto o CPI garantiu o sinal de alta para a Bolsa, o ritmo foi ditado, em boa medida, pelo desempenho das ações da Petrobras. O petróleo Brent, referência para a Petrobras, subiu 1,72%, para US$ 84,73 no contrato para setembro. Petrobras ON encerrou em baixa de 0,50% e a PN ficou estável. Nas demais blue chips, o setor financeiro terminou com desempenho misto, com Itaú Unibanco PN em alta de 0,25% e Bradesco PN em baixa de 0,75%. Vale se recuperou do recuo de segunda e terminou com alta de 1,59%, dado o avanço do minério de ferro.

Para Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, a Bolsa brasileira tende a ser favorecida se consolidada a ideia de que o Fed não vai elevar juros no curto prazo. “Nesse caso, o investidor institucional deve voltar a se posicionar em bolsas de mercados emergentes como a nossa, que também é forte em commodities. Esse fluxo está um pouco travado por causa do Trump”, explicou.

O Ibovespa encerrou o dia em alta de 0,51%, aos 176.641,10 pontos, entre a máxima de 177.179 (+0,82%) e a mínima de 175.743 (estável). O volume financeiro foi de R$ 21,8 bilhões. Em julho, o índice sobe 2,68% e em 2026 avança 9,63%.

Juros

Os juros futuros negociados na B3 terminaram a sessão desta terça-feira, 14, em forte baixa, influenciados principalmente pelo dado de inflação ao consumidor abaixo do esperado nos Estados Unidos. Ao mostrar recuo maior do que o previsto em junho, o CPI derrubou a curva de Treasuries e enfraqueceu o dólar, levando a reboque o mercado local de renda fixa, apesar da nova escalada de tensões no Oriente Médio que pressionou as cotações do petróleo.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) de janeiro de 2027 cedeu de 13,947% no ajuste da véspera a mínima intradia de 13,895%. O DI para janeiro de 2029 encerrou negociado na mínima intradia de 14,02%, vindo de 14,195%. O DI para janeiro de 2031 diminuiu de 14,363% a 14,215%.

Publicado na abertura dos negócios, o CPI caiu 0,4% em junho ante maio. A expectativa do mercado era de deflação menor, de 0,1%. Já o dado anual avançou 3,5% no período, frente estimativa de 3,8% do Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado). Após a divulgação, o mercado reduziu as apostas de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) aumentará os juros nas próximas reuniões: a probabilidade de alta de 25 pontos-base na reunião de setembro saiu de 73% para cerca de 60%. As chances de manutenção da taxa na faixa de 3,50% a 3,75%, por sua vez, subiram de 27,0% para 40%.

Especialista em Investimentos da Nomad, Bruno Shahini afirma que o CPI descomprimiu a curva de DIs por meio de dois canais de transmissão: a baixa nos retornos dos Treasuries, que chegaram a devolver cerca de 4 pontos-base à tarde no vencimento de 10 anos, e a depreciação do dólar, que fechou com queda de 1,06% ante o real, cotado a R$ 5,0778. “O dólar voltando para a casa de R$ 5,07 dá um alívio maior nos nossos juros”, disse.

Shahini observa que, em julho, o mercado local de renda fixa mostrou correlação maior com a curva dos títulos soberanos dos EUA, o que ele também credita à volta ao radar da guerra no Oriente Médio, dado que a volatilidade nos preços do petróleo, com o barril do Brent avançando para o nível de US$ 80 novamente, foi um vetor de pressão para os juros dos Treasuries. Dada a assimetria das incertezas e o cenário de escalada do confronto, que traz efeitos de segunda ordem à inflação, o especialista avalia que ainda é cedo para prever uma trajetória menos conservadora para os juros nos EUA. Em sua visão, a precificação da curva americana de juros tem “muito ruído”.

Para Stephen Brown, economista-chefe para América do Norte da Capital Economics, o boom de investimentos em IA e sinais de retomada da demanda do consumidor continuarão mantendo a inflação subjacente, ou seja, que exclui itens voláteis, acima da meta nos EUA. A consultoria britânica segue com o call de que o Comitê de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) do Fed deve elevar os juros mais adiante neste ano.

Por aqui, a precificação da curva futura apontava no fim desta tarde 94% de probabilidade de corte de 25 pontos da Selic em agosto, ante 6% de possibilidade de manutenção nos atuais 14,25% Para setembro, há 9 pontos totais de corte, número que estava em 6 pontos no início da tarde. Os cálculos são de Luciano Rostagno, economista-chefe da EPS Investimentos.

Estadão Conteúdo

T LB

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