Terça-feira, 16/06/26

Empresa de identidade digital acusa Serasa de usar indevidamente milhões de dados biométricos

Empresa de identidade digital acusa Serasa de usar indevidamente milhões de dados biométricos
Empresa de identidade digital acusa Serasa de usar indevidamente milhões – Reprodução

CHRISTIAN POLICENO
FOLHAPRESS


A empresa de identidade digital e biometria facial Unico acusa a Serasa Experian de utilizar, de forma indevida, sua tecnologia. De acordo com pessoas ouvidas pela reportagem, isso teria permitido que a empresa fizesse milhões de consultas relacionadas a dados biométricos de brasileiros.

O caso é alvo de ações nas esferas cível e criminal e tramita sob segredo de Justiça. Conforme relatos obtidos pela reportagem, as acusações resultaram no cumprimento de um mandado de busca e apreensão contra a Serasa por peritos criminais em São Paulo na quarta-feira (11). A informação foi antecipada pelo jornal Valor Econômico.

Em nota, a Serasa Experian negou a acusação. “O processo tramita em segredo de Justiça e, por isso, [a empresa] ainda não teve acesso a ele para saber exatamente do que se trata”, afirmou. “A empresa reforça que atua com estrita observância à legislação aplicável e que se manifestará oportunamente no processo, momento em que esclarecerá tudo o que for necessário”.

A Serasa Experian é uma empresa que automatiza análise de crédito, prevenção a fraudes e cobrança, permitindo que empresas avaliem o risco de clientes através do “score” (pontuação) e renegociem dívidas.

Já a Unico usa biometria facial e IA (inteligência artificial) para validar identidades em tempo real, protegendo cadastros e transações em bancos, ecommerces e apps contra golpes de roubo de dados e deepfakes.

Segundo pessoas com conhecimento da acusação, a Unico alega que os dados acessados pela Serasa são de reconhecimento facial e biométrico de milhões de clientes de bancos brasileiros que são clientes da empresa. Ou seja, não se tratam de dados bancários desses clientes, mas de informações biométricas e faciais.

A prática teria como objetivo contribuir para o aprimoramento dos sistemas de identificação oferecidos pela Serasa e pela ClearSale -empresa de inteligência de dados incorporada e adquirida pela Serasa em 2025-, e aumentar a base de identidades válidas das empresas.

A Serasa e a ClearSale teriam acessado serviços da Unico por meio da Skill Tecnologia, firma que possuía autorização para utilizar a plataforma exclusivamente em operações do Banco do Brasil.

Em nota, o BB diz que “acompanha o caso, que envolve outras instituições, e destaca que sua operação e os dados de seus clientes seguem em normalidade e segurança”.

Procurada por WhatsApp e email desde quinta-feira (11), a Unico não se manifestou. A Skill Tecnologia foi procurada por email às 18h38 do mesmo dia, mas não respondeu ao contato da reportagem.

De acordo com pessoas a par do assunto, a Unico identificou um crescimento incomum no volume de consultas atribuídas ao banco. Ao questionar o Banco do Brasil, teria sido informada de que não havia aumento equivalente em suas operações. A partir daí, iniciou uma investigação própria.

A investigação apontou que consultas relacionadas a outros clientes estariam sendo processadas por um canal destinado exclusivamente ao banco público. A suspeita da companhia é que esse mecanismo tenha permitido o uso não autorizado da tecnologia e de dados gerados nas validações biométricas.

Um laudo pericial contratado pela acusação ainda teria identificado ao menos 1,4 milhão de transações consideradas irregulares. A estimativa da empresa é de que o potencial de consultas envolvidas possa alcançar dados de até 22 milhões de brasileiros.

Na esfera judicial, a Unico acusa a Serasa Experian de concorrência desleal, uso indevido de informações confidenciais e obtenção irregular de vantagem tecnológica.


T LB

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