O governo do Irã realizou um massacre ao reprimir os protestos no país, afirmou neste domingo (11) uma ONG, em um dia no qual as autoridades convocaram manifestações de apoio à República Islâmica e decretaram três dias de luto nacional.
Segundo a ONG Iran Human Rights, com sede na Noruega, pelo menos 192 manifestantes morreram nos maiores protestos contra o governo no Irã em três anos.
A ONG, no entanto, não descarta que esse número seja maior porque o corte de internet impede a verificação dessas informações. O saldo anterior era de 51 mortos.
Os protestos começaram há duas semanas. Inicialmente motivados pelo aumento do custo de vida, evoluíram para um movimento contra o regime teocrático que governa o Irã desde a revolução de 1979.
Diante desse quadro, o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu neste domingo às autoridades iranianas “máxima moderação e que se abstenha de usar a força de forma desnecessária e desproporcional”.
O governo iraniano decretou três dias de luto nacional pelos “mártires”, incluindo os membros das forças de segurança, que morreram durante os protestos.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, instou a população a comparecer nesta segunda-feira à “marcha nacional de resistência” para denunciar a violência que, segundo o governo, tem sido cometida por “criminosos terroristas urbanos”.
Essas manifestações representam um dos maiores desafios ao governo do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, após a guerra de 12 dias de Israel contra a República Islâmica em junho, apoiada pelos Estados Unidos, que se declararam “prontos para ajudar” a população iraniana.
‘Alvos legítimos’
Em caso de um ataque militar americano, “tanto o território ocupado quanto as instalações militares e navais dos Estados Unidos serão nossos alvos legítimos”, alertou o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, neste domingo, segundo a televisão estatal.
Ele parece ter feito alusão a Israel, que o Irã não reconhece oficialmente e considera um território palestino ocupado.
Em Jerusalém, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou: “Todos nós esperamos que a nação persa seja em breve libertada do jugo da tirania.”
Em entrevista transmitida neste domingo pela emissora estatal IRIB, o presidente Pezeshkian afirmou que “o povo não deve permitir que vândalos perturbem a sociedade”.
Apesar disso, a mobilização continua.
Vídeos publicados nas redes sociais mostram multidões nas ruas durante novos protestos em diversas cidades, incluindo a capital, Teerã, e Mashhad, no leste.
Os vídeos vazaram apesar do bloqueio total da internet no país, o que impossibilitou a comunicação com o mundo exterior por meio de aplicativos de mensagens ou mesmo linhas telefônicas.
Hospitais ‘sobrecarregados’
O bloqueio da internet “já ultrapassou 60 horas […] A medida de censura representa uma ameaça direta à segurança e ao bem-estar dos iranianos”, afirmou neste domingo a Netblocks, uma organização de vigilância da segurança cibernética e da governança da internet.
O Centro para os Direitos Humanos no Irã (CHRI, na sigla em inglês), com sede nos Estados Unidos, afirma ter recebido “relatos de testemunhas oculares e informações confiáveis que indicam que centenas de manifestantes morreram no Irã durante o atual bloqueio da internet”.
“Um massacre está acontecendo no Irã. O mundo precisa agir agora para evitar mais perdas de vidas”, alertou.
O CHRI acrescentou que os hospitais estão “sobrecarregados”, os estoques de sangue estão se esgotando e muitos manifestantes foram baleados nos olhos.
Detenções ‘significativas’
O chefe da polícia nacional, Ahmad Reza Radan, anunciou prisões “significativas” de figuras proeminentes dos protestos na noite de sábado. Ele não especificou o número de prisões nem revelou suas identidades.
O chefe de segurança do Irã, Ali Larijani, distinguiu entre protestos contra as dificuldades econômicas, que ele chamou de “completamente compreensíveis”, e “tumultos”, que descreveu como “muito semelhantes aos métodos de grupos terroristas”, informou a agência de notícias Tasnim.
Reza Pahlavi, filho exilado do xá deposto, que desempenhou um papel fundamental na organização dos protestos, disse neste domingo que está preparado para retornar ao país e liderar “a transição” para um governo democrático.








