Segunda-feira, 22/06/26

IA que você usa pode ser desligada pelos EUA. Qual plano B do Brasil?

IA que você usa pode ser desligada pelos EUA. Qual plano B do Brasil?
IA que você usa pode ser desligada pelos EUA. Qual – Reprodução

E nesse contexto aconteceu uma reunião fechada com chefes de Estado, incluindo Trump, e os CEOs das principais empresas americanas durante o G7 na semana passada. Eles propuseram a criação de uma coalizão de IA liderada pelos Estados Unidos, com acesso estruturado aos modelos de fronteira e comércio de chips, deixando a China explicitamente de fora. Ou seja, os donos dos modelos proprietários querem agora definir também as regras de quem joga e com qual bola.

Aqui é importante lembrar que ter acesso não é ter a posse. O Brasil, como a maior parte do mundo, depende dos modelos desenvolvidos por essas duas potências para incorporar a IA nos seus setores produtivos, nas empresas, nas universidades e nos serviços públicos. Só que o episódio do Fable 5 deixa claro que essa dependência tem o risco da torneira ser fechada a qualquer momento por uma decisão comercial ou política.

E aí a situação fica ainda mais desafiadora. O pesquisador Jeffrey Ding, no livro “Technology and the Rise of Great Powers”, argumenta que nas grandes revoluções tecnológicas quem ganha não é necessariamente quem inventa, mas quem consegue difundir a tecnologia por todos os setores da economia. A eletricidade é o exemplo mais fácil para entendermos. A Inglaterra inventou, mas foram os Estados Unidos e a Alemanha que a espalharam pela indústria, pela agricultura e pelos serviços, e foi então que o jogo virou.

Assumindo a mesma lógica para a IA, ainda que o Brasil não consiga competir no desenvolvimento dos modelos mais avançados, ainda dá para jogar esse jogo se promovermos a adoção. O Plano brasileiro de IA (PBIA) tem muitas ações nesse sentido. Só que a adoção também depende do acesso. E o episódio do bloqueio ao Fable mostra a fragilidade de confiar sua estratégia de transformação por meio de uma tecnologia emprestada.

Diante disso, muitos países passam a olhar para os modelos abertos chineses como alternativa. Tecnologias como DeepSeek, Qwen da Alibaba, e Kimi, embora não superem em capacidade os americanos, custam muito menos e podem ser rodados na infraestrutura do próprio país, sem que tenha um botão em que alguém de fora possa desligá-lo.

Não é à toa que isso preocupa o governo dos EUA. Um relatório publicado pelo Congresso americano, chamado “Two Loops”, mostra que sete dos dez modelos mais baixados no Hugging Face, a principal plataforma de distribuição de modelos de IA do mundo, são chineses. E segundo levantamento da Andreessen Horowitz, citado no mesmo relatório, cerca de 80% das startups americanas já usam modelos-base chineses para construir suas aplicações.


T LB

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