Segunda-feira, 10/08/26

Ipês-amarelos tomam conta do DF e anunciam a chegada da seca

Ipês-amarelos tomam conta do DF e anunciam a chegada da seca
Ipês-amarelos tomam conta do DF e anunciam a chegada da – Reprodução

Por Thamires Pinheiro

Brasília costuma mudar de cor durante a seca. Aos poucos, as copas verdes dão lugar a cachos de flores amarelas, que aparecem em diferentes pontos do Distrito Federal e transformam ruas, gramados e avenidas em cenários que chamam a atenção de quem passa. A florada dos ipês-amarelos é uma das marcas mais conhecidas do período de estiagem na capital e pode se estender até setembro, dependendo da espécie.

As primeiras copas amarelas deste ano já foram observadas na L2 Norte, na altura da 402, e na área comercial da CLSW 302, no Sudoeste. Em outras regiões, como as quadras 216 e 404 da Asa Norte, além de trechos do Eixão e de parques urbanos, as flores também começam a aparecer. Boa parte das árvores, no entanto, ainda está sem flores, o que deve fazer com que a paisagem mude nas próximas semanas.

Segundo a Novacap, a floração dos ipês-amarelos está dentro do período esperado. O Distrito Federal possui duas espécies de ipês de flores amarelas. A Tabebuia serratifolia floresce entre julho e setembro, com a árvore totalmente desfolhada. Em alguns casos, a mesma planta pode apresentar mais de uma floração na estação, com intervalo de 10 a 15 dias. Os frutos amadurecem entre setembro e novembro, quando também surgem novas folhas.

Já a floração do chamado ipê-amarelo-peludo, a Tabebuia chrysotricha, ocorre principalmente entre julho e agosto. Os frutos amadurecem entre agosto e outubro.

A sequência de cores também acompanha um padrão observado no período de estiagem. De acordo com a Novacap, os ipês costumam florescer durante a seca, que tradicionalmente compreende os meses de junho a setembro na capital. Em geral, a florada começa pelos ipês-roxos, seguida pelos amarelos, rosas e brancos.

Uma árvore da seca

Foto: Thamires Pinheiro/Jornal de Brasília

Apesar de parecer contraditório, é justamente durante o período de pouca chuva que os ipês ficam mais exuberantes. O efeito está relacionado à forma como essas árvores respondem às mudanças provocadas pela chegada da estação seca.

Em entrevista ao JBr, o biólogo e mestre em Ecologia pela Universidade de Brasília Vitor Sena explica que a floração faz parte do ciclo natural das espécies do Cerrado.

“A floração dos ipês está relacionada ao ciclo sazonal do Cerrado. Durante a estação seca, a redução da disponibilidade de água e a queda das folhas fazem parte dos sinais ambientais que antecedem a floração.”

O chamado estresse hídrico, provocado pela menor disponibilidade de água, funciona como um dos gatilhos para a mudança. Mas não é o único fator. A quantidade de luz recebida durante o dia, a temperatura e as características genéticas da própria árvore também participam desse processo.

“É como se o ipê tivesse um calendário interno que lê as mudanças da estação, determinado por fatores genéticos e ambientais. Quando as condições certas chegam, ele deixa de investir tanto em folhas e direciona recursos para a reprodução”, explica Sena.

A resposta também ajuda a entender por que uma árvore que parece perder força durante a seca pode, na verdade, estar entrando em um dos momentos mais importantes de seu ciclo.

Por que as folhas caem antes das flores?

Foto: Thamires Pinheiro/Jornal de Brasília

Antes de aparecerem as flores amarelas, os ipês costumam ficar quase completamente sem folhas. A aparência pode dar a impressão de que a árvore está sofrendo com a falta de chuva, mas a queda também é uma estratégia de adaptação.

Com menos folhas, a árvore reduz a quantidade de água perdida para a atmosfera. Ao mesmo tempo, as flores ficam mais expostas, facilitando sua visualização e podendo favorecer a atração de polinizadores.

“É uma estratégia de adaptação à estação seca. Ao reduzir o número de folhas, a árvore diminui a perda de água por transpiração, justamente quando esse recurso está mais limitado. Além disso, quando as folhas caem, as flores ficam muito mais expostas e visíveis”, afirma o biólogo.

A Embrapa também registra a relação entre o período seco e mudanças fisiológicas observadas no ipê-amarelo, incluindo alterações na transpiração e em outros processos da planta sob condições de menor disponibilidade de água.

A quantidade de flores também não depende apenas de quanto tempo Brasília ficará sem chuva. Temperatura, duração da estiagem e ocorrência de chuvas fora do padrão podem interferir no momento e na intensidade da florada.
A quantidade de flores e o momento em que as árvores atingem o auge da floração dependem diretamente das condições climáticas e do nível de seca enfrentado pelos exemplares, explica a Novacap.

Por isso, uma mesma espécie pode apresentar diferenças de intensidade entre um ano e outro. O clima influencia o calendário natural das árvores, mas cada indivíduo também responde de acordo com suas próprias condições.

Brasília abre as portas para a florada

Foto: Thamires Pinheiro/Jornal de Brasília

O espetáculo que hoje parece fazer parte da identidade da capital também tem relação com a própria história da arborização de Brasília. Os ipês são árvores nativas do Cerrado e foram amplamente utilizados no paisagismo urbano, passando a ocupar ruas, parques, praças e áreas verdes.

A Novacap é responsável pelo plantio e pela manutenção da arborização em áreas públicas do DF. A companhia, no entanto, esclarece que não possui atualmente uma equipe de botânica dedicada exclusivamente ao registro ou mapeamento do início da floração por Região Administrativa. Por isso, não é possível informar com precisão quantos ipês-amarelos existem atualmente em todo o Distrito Federal.

Um dado disponível, porém, mostra parte da presença dessas árvores na capital. Desde a criação do Programa de Arborização do Distrito Federal, em 2016, a Novacap plantou 10.764 mudas de ipês-amarelos até 2025, considerando as duas espécies encontradas no DF.

O número representa apenas as mudas plantadas pela companhia dentro do programa e portanto, não corresponde ao total de ipês-amarelos existentes atualmente na arborização do Distrito Federal.

Para Sena, a presença dos ipês também ajuda a aproximar os moradores do bioma que existe ao redor e dentro da própria cidade.

“Os ipês combinam duas características muito marcantes de Brasília, que são a paisagem urbana planejada e a presença do Cerrado.”

Segundo o biólogo, a árvore pode funcionar como uma porta de entrada para que a população conheça melhor a natureza do Distrito Federal. “A árvore florida desperta encantamento, mas também pode despertar curiosidade sobre o bioma, seus ciclos e sua biodiversidade.”

Onde ver os ipês-amarelos

Foto: Thamires Pinheiro/Jornal de Brasília

Quem quiser acompanhar a florada pode encontrar árvores em diferentes regiões da capital. Entre os pontos que mais costumam concentrar exemplares estão os canteiros e vias arborizadas do Eixão Norte e Sul, as quadras 216 e 404 da Asa Norte, além de áreas do Parque da Cidade e do Parque Nacional de Brasília.

As entrequadras da Asa Norte e da Asa Sul também são opções para quem prefere observar as árvores durante uma caminhada. As primeiras flores deste ano já foram identificadas na L2 Norte, na altura da 402, e na CLSW 302, no Sudoeste.

A florada pode ser acompanhada ainda depois que as flores deixam as copas. Conforme elas caem, formam tapetes amarelos sobre calçadas e gramados, prolongando por alguns dias o espetáculo.

T LB

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