Quarta-feira, 17/06/26

Ministério acusa de desobediência servidor que contrariou ministro sobre lista do trabalho escravo

Ministério acusa de desobediência servidor que contrariou ministro sobre lista do trabalho escravo
Ministério acusa de desobediência servidor que contrariou ministro sobre lista – Reprodução

LUANY GALDEANO E LAURA SCOFIELD
FOLHAPRESS


Um parecer da área jurídica do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) acusa a Secretaria de Inspeção do Trabalho, do mesmo órgão, de desobedecer à hierarquia e gerar prejuízos à imagem e à honra do ministro Luiz Marinho. O motivo é uma divergência sobre o cadastro de empresas e empregadores na lista suja do trabalho escravo.

O parecer foi produzido pela consultoria jurídica do ministério em 29 de abril, duas semanas após a destituição de Luiz Felipe Brandão de Mello, então chefe da Secretaria de Inspeção do Trabalho. A reportagem tenta contato com ele desde o dia 3 de junho por mensagem e telefone, mas não obteve resposta.

A exoneração dele ocorreu após a inclusão da montadora chinesa BYD na lista suja do trabalho escravo.

O ministério disse na época que a saída de Brandão do cargo se tratava de ato administrativo de gestão, de prerrogativa do ministro.

A empresa foi retirada do cadastro por uma decisão posterior da Justiça.

O documento da área técnica atendeu a uma reclamação da Apaeb (Associação de Desenvolvimento Sustentável e Solidário da Região Sisaleira), que entrou na lista suja e solicitou providências ao MTE sobre a demora em ser retirada do cadastro.

Como mostrou a Folha de S.Paulo, Marinho interferiu em prol da entidade, fundada pelo presidente de um diretório do PT na Bahia. Ele lançou mão da avocação —em que o ministro assume o poder de decisão— para cancelar as infrações da associação.

O parecer da área jurídica dá razão a Marinho, com a justificativa de que não existiriam elementos suficientes para a caracterização de vínculo empregatício entre a Apaeb e os trabalhadores encontrados na Fazenda Pau de Colher em condições de trabalho análogo à escravidão.

O documento afirma que a secretaria de Inspeção do Trabalho fez uma série de questionamentos sobre a avocação, o que atrasou o cumprimento da ordem do ministro. Além disso, diz que houve demora no cumprimento da decisão judicial que determinou a retirada da associação da lista suja.

“A administração pública deve cumprir essas decisões de forma direta, sem tentar reavaliar o que já foi decidido”, diz o parecer.

“Tais manifestações produzem efeitos externos relevantes, com repercussão sobre a imagem pública da autoridade do ministro, contribuindo para a amplificação de controvérsias externas”, afirma, mencionando ainda prejuízo à “honra pessoal de autoridades públicas”, referindo-se a Marinho.

O parecer acusa ainda a secretaria de tomar ações incoerentes, que mostram conduta “desidiosa e negligente”. E diz que a secretaria estaria cometendo erros grosseiros na identificação das empresas efetivamente responsáveis por infrações trabalhistas. Os desvios, avalia a área jurídica, estariam sendo corrigidos pelo ministro por meio da avocação.

O Ministério do Trabalho diz ter compromisso com a legalidade e impessoalidade. A pasta afirmou ainda que a análise de decisões por instâncias superiores está prevista em lei e não configura interferência indevida na atuação dos auditores. Segundo o MTE, a inclusão de empregadores na lista suja segue critério técnico e não tem processo alterado sem fundamentação legal.

Estar na listagem impõe restrições reputacionais e financeiras a empresas flagradas em irregularidades, além da exclusão de infratores de licitações públicas.

Marinho reabriu no ano passado processo contra a Apaeb, já encerrado em junho de 2024, com multas pagas, retirando-a da lista suja do trabalho escravo. A 11ª Vara do Trabalho reverteu a decisão, em processo envolveu outras empresas que também tiveram processos avocados pelo ministro. A AGU (Advocacia-Geral da União) recorreu e obteve decisão favorável, retirando as firmas do cadastro.

Procurada, a Apaeb diz que não tem fazenda e não faz plantio ou colheita da fibra de sisal. “A Apaeb não tem qualquer relação com a fazenda citada no processo, além de nunca ter tido qualquer tipo de contato direto ou indireto com nenhum dos trabalhadores. Isto foi explicado diversas vezes aos fiscais, que ignoraram e preferiram acusar a associação mesmo assim”, afirma.

O caso deve agora parar na corregedoria para investigação da conduta administrativa.

Luiz Felipe Brandão de Mello é auditor fiscal do trabalho desde 1996 e já havia ocupado postos de chefia na fiscalização do trabalho no Rio Grande do Sul.

Se o processo for aceito pela corregedoria, a investigação pode resultar em advertência, demissão ou suspensão, de acordo com um auditor.

Esses não foram os únicos casos de avocação de denúncias de trabalho escravo sob a batuta de Marinho.

No ano passado, o ministro fez o mesmo com empresas do agro e da construção.


T LB

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