Quinta-feira, 27/08/26

Mulheres negras lançam manifesto para eleições de 2026

Mulheres negras lançam manifesto para eleições de 2026
Mulheres negras lançam manifesto para eleições de 2026 – Reprodução

Em Brasília, a Articulação de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) lançou nesta quarta-feira (26) o Manifesto Político das Mulheres Negras do Brasil: O Pacto do Bem Viver e as Eleições 2026. O texto propõe a construção de um sistema político focado no bem viver, com justiça, equidade, solidariedade e vida digna no centro das decisões e da formulação de políticas públicas.

O manifesto defende que mulheres pretas e pardas ocupem, a partir de 2027, o centro do processo político como cidadãs, eleitoras, lideranças em seus territórios, candidatas e presença em outros espaços de poder. O documento também sustenta que a importância das mulheres na vida política deve ser reconhecida na capacidade de gestão e de imaginação, o que, segundo o texto, torna prioritária sua presença nas casas legislativas e no Executivo.

A coordenadora nacional da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), Jolúzia Batista, afirmou que a luta do manifesto é por igualdade, justiça e reparação, para corrigir desigualdades estruturais originadas por mais de três séculos de escravidão no Brasil. Segundo ela, o conjunto de diretrizes apresentado aos candidatos e governantes busca servir de base para cobrança e implementação de políticas públicas.

Durante o lançamento, as participantes criticaram o racismo e o sexismo na dinâmica das escolhas eleitorais e apontaram a desvalorização das mulheres pelos partidos políticos, além da baixa destinação de recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), o Fundo Eleitoral. Também foi divulgada a hashtag #EuVotoEmNegra, de uma campanha nacional de incentivo à representatividade e à presença de mulheres negras na política brasileira.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), nas Eleições Gerais de 2026, do total de 20.560 candidaturas, 1.234 são de mulheres pretas, o equivalente a 6% do total, e 2.485 são de candidatas pardas, ou 12,2%. Os percentuais contrastam com a realidade populacional brasileira: segundo a PNADC/A de 2021, do IBGE, 28,2% da população, cerca de 58 milhões de pessoas, são mulheres negras.

A promotora de Justiça Nádia Estela Ferreira Mateus, coordenadora de Combate ao Racismo e Todas as Outras Formas de Discriminação do Ministério Público de Minas Gerais, também lamentou a baixa presença de servidoras negras no Ministério Público. Ela citou o Perfil Étnico-Racial do Ministério Público Federal, segundo o qual, entre 13 mil membros das unidades de todo o país, apenas 0,7% — 81 mulheres — são procuradoras e promotoras pretas.

No evento, as lideranças também contextualizaram o cenário político das eleições de outubro deste ano e apontaram a existência de uma guerra híbrida, em nível global e nacional, para desconstruir direitos humanos e sociais e atingir grupos historicamente marginalizados, como mulheres negras, população LGBTQIA+, comunidades tradicionais e periféricas. A coordenadora executiva da AMNB, Janira Sodré, chamou essa estratégia de “tecno autoritarismo” e afirmou que ela envolve o papel das big techs na distribuição de informações políticas.

Janira disse ainda que a guerra híbrida vende a perda de garantias históricas como avanço social e mencionou ataques ao discurso de ódio no ambiente virtual, a serviços públicos e a servidores que garantem direitos sociais coletivos, além da atuação de milícia, narcotráfico e civis armados em territórios vulnerabilizados. Ela afirmou esperar que os eleitos garantam a presença do Estado com bens e serviços de cidadania, decisões orçamentárias e equipes voltadas para políticas públicas para a comunidade.

O lançamento reuniu mulheres negras de diferentes gerações para firmar um pacto intergeracional voltado ao fortalecimento da ocupação de espaços estratégicos de decisão. Entre as participantes estava Caiene Reinier Freitas, mestranda e engenheira ambiental e sanitarista, bolsista do Instituto Baobá. Mulher trans, ela destacou a importância da ocupação de espaços de poder para avançar nas políticas públicas e denunciou a violência vivida por mulheres trans e travestis no Brasil.

T LB

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