Sexta-feira, 17/04/26

Novo reitor da USP enfrenta primeira greve após aprovar bônus para professores

Novo reitor da USP enfrenta primeira greve após aprovar bônus para professores
Novo reitor da USP enfrenta primeira greve após aprovar bônus – Reprodução

Estudantes da USP (Universidade de São Paulo) aprovaram uma paralisação nesta terça-feira (14). Na mesma data, os funcionários devem dar início a uma greve.

O motivo da mobilização das categorias é um bônus aprovado para professores da instituição, chamado de Gace (Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas).

A medida, aprovada pelo Conselho Universitário em 31 de março, cria um pagamento adicional de R$ 4.500 voltado a docentes que assumirem projetos considerados estratégicos, como a oferta de disciplinas em inglês e ações de extensão. A iniciativa já vinha sendo discutida há anos e foi promessa de campanha do atual reitor, Aluisio Segurado, que assumiu o cargo neste ano.

Ela terá impacto anual de R$ 238,44 milhões aos cofres da USP. O pagamento será mensal, em parcelas fixas e irreajustáveis, por até 24 meses. Apenas docentes em regime de dedicação integral poderão ser contemplados.

O salário inicial de um professor-doutor na USP é de R$ 16.353,01 mensais. A bonificação representaria um acréscimo de 27,5% nesses vencimentos.

Os servidores, que aprovaram greve por unanimidade, classificam a medida como elitista. Segundo eles, enquanto os docentes recebem benefícios, as pautas dos demais funcionários são negligenciadas.

“Queremos tratamento isonômico entre funcionários e professores. Não podemos aceitar R$ 4.500 para eles e nada para nós e para o restante da comunidade universitária”, diz, em comunicado, o Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo).

A entidade pede reajuste fixo de R$ 1.200 nos salários, além da recomposição integral das perdas calculadas pela inflação desde 2012, estimadas em 14,5%.

Em nota publicada após a aprovação da gratificação, o reitor disse que a medida tem como objetivo promover a valorização das atividades acadêmicas e da carreira docente, “não apenas com vistas ao reconhecimento e à retenção de talentos, mas, igualmente, ao estímulo e à ampliação da excelência acadêmica como pressuposto do desenvolvimento social”.

Segurado também afirmou que a instituição possui projetos para os servidores técnico-administrativos. Estaria em análise, por exemplo, a viabilidade econômica e de integração ao plano de carreira de uma proposta de valorização desse grupo.

A gestão anunciou ainda o reajuste dos benefícios concedidos aos servidores a partir de abril deste ano. O vale-alimentação passará de R$ 1.950 para R$ 2.050. O vale-refeição será aumentado de R$ 45 para R$ 65 por dia, além do reajuste de 14,3% do auxílio-saúde (pagamento em maio de 2026).

Hoje, a USP possui cerca de 12.600 funcionários técnico-administrativos. Não se sabe quantos deles vão aderir à greve, mas a paralisação deve interromper alguns serviços e atrasar o calendário da instituição. Há casos de provas adiadas, por exemplo.

Já os alunos devem se ausentar das aulas apenas nesta terça para protestar contra a Gace.

Representantes de ao menos 100 cursos (na capital paulista e no interior) devem participar da paralisação. Desde a noite de segunda-feira (13), eles realizam piquetes nas portas das faculdades para impedir a circulação.

O DCE (Diretório Central dos Estudantes) defende que a universidade deveria priorizar o investimento em medidas de permanência estudantil.

A entidade pede o aumento do número de bolsas do Pafpe (Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil) ou o reajuste dos valores. Atualmente, ele oferece bolsas integrais de R$ 885 e parciais de R$ 335. A proposta do DCE é que isso seja elevado para R$ 1.000 e R$ 500, respectivamente.

No início deste semestre, foram disponibilizadas 2.500 vagas, sendo 2.254 integrais e 246 parciais. O custo ao ano para atender esse grupo de estudantes é de cerca de R$ 25 milhões.

Os estudantes também reclamam da qualidade de serviços como os restaurantes universitários. Nas últimas semanas, surgiram denúncias de refeições estragadas e com larvas sendo servidas, especialmente na Faculdade de Direito. As unidades são terceirizadas.

Sobre essas pautas, a USP diz que, em 2023, foi estabelecida uma política para dar suporte à permanência e a diferentes atividades de formação estudantil. Nesse contexto, incluíram-se as bolsas e auxílios de diferentes programas.

“O Papfe é uma política estruturada e consolidada, figurando entre as maiores iniciativas do país na área, com crescimento contínuo de investimentos. Em 2026, para o conjunto de programas, está previsto um aporte de aproximadamente R$ 461 milhões, o que representa aumento de 8,25% em relação ao ano anterior”, afirmou a instituição.

Os alunos contemplados são selecionados a partir de um questionário, que considera, dentre seus parâmetros, as situações de vulnerabilidade socioeconômica. Entre 2023 e 2025, 41,7% dos contemplados eram originários de famílias com renda menor que meio salário mínimo paulista (R$ 1.804), afirma a USP.

Em relação aos restaurantes universitários, a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento disse que equipes técnicas do serviço de alimentação estão realizando visitas às unidades para apurar as ocorrências relatadas pelos estudantes e as medidas administrativas estão sendo tomadas.

No caso específico da Faculdade de Direito, a empresa responsável já foi formalmente advertida e foram realizadas duas reuniões com representantes estudantis e a direção da unidade para informar sobre o andamento do processo. Além disso, uma técnica em nutrição também foi designada para acompanhamento contínuo no local.

HISTÓRICO

A última greve na USP havia ocorrido em 2023, de setembro a novembro.

Essa mobilização envolveu estudantes e docentes, sendo motivada pela falta de professores —principalmente na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas)—, precarização dos espaços e demandas de permanência estudantil.

Ao fim da paralisação, a reitoria se comprometeu a repor o quadro de educadores.

T LB

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *