Domingo, 14/06/26

Reatores nucleares pequenos não são panaceia, diz agência da ONU

Reatores nucleares pequenos não são panaceia, diz agência da ONU
Reatores nucleares pequenos não são panaceia, diz agência da ONU – Reprodução

IGOR GIELOW
VIENA E MOCHOVCE, ESLOVÁQUIA (FOLHAPRESS) – O renascimento do interesse na energia nuclear, cortesia de uma combinação de crise climática, instabilidade geopolítica e apetite por megawatts da indústria da tecnologia, tem nos SMRs seu porta-bandeira.

A sigla em inglês significa pequenos reatores modulares e entrega seu ponto de venda: são usinas miniaturizadas, móveis e feitas em série, com a geração sendo aumentada com a adição de novas unidades ao gosto do cliente.

Tudo isso a uma fração dos custos das dispendiosas usinas tradicionais, que podem chegar a R$ 150 bilhões em plantas de grande porte. Mas há obstáculos para que os SMR virem a panaceia prometida.

“Sabemos que os SMR são muito bem vendidos, como uma bateria nuclear a ser comprada e usada. Mas essa é uma história ainda a ser escrita”, diz Matthew van Sickle, da seção de Desenvolvimento de Infraestrutura Nuclear da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica).

Falando a jornalistas em um seminário em Viena, sede do órgão ligado à ONU (Organização das Nações Unidas), ele e sua colega Brianna Lazerwitz foram céticos em relação ao entusiasmo com os SMR. “Eles são teóricos. Não se sabe se funcionam em escala”, disse ela.

Ambos afirmam que “tamanho não importa”, e que, como toda tecnologia nova, os SMR terão de passar por todo o calvário regulatório do setor. Isso pode levar, sustentam os especialistas, de 10 a 20 anos, dependendo do país a adotar.

Hoje, muitos dos interessados são nações mais pobres da África e da Ásia. “Se eu fosse dar um conselho, seria ‘não faça aventuras’. Se for a primeira vez [como operador nuclear], use algo que já foi testado”, diz Lazerwitz.

Ela e o colega concordam que poderá haver ganho na velocidade da construção das usinas menores. Hoje, uma planta tradicional consome até cinco anos na fase de desenvolvimento e até sete sendo feita.

Depois, pode operar por 60 anos ou mais, enquanto a fase de desativação pode levar até 25 anos.

Apenas a Rússia e a China operam SMRs hoje, mas essa tecnologia está sendo impulsionada no mundo todo. O Brasil já manifestou interesse em negócios com Moscou, que sugeriu versões fluviais na Amazônia de seu duplo reator ancorado na Sibéria, a barcaça Acadêmico Lemonosov.

Mas é na tecnologia do futuro que está o foco nos reatores menores, que geram entre 10 MW e 300 MW, enquanto seus irmãos maiores começam em 650 MW. A aceleração do desenvolvimento da IA (inteligência artificial) e dos data centers das big techs levou a um boom de investimentos no setor.

A consultoria Bloomberg Intelligence estimou em 2025 que a demanda por novos reatores crescerá 63% nos Estados Unidos até 2050, movimentando US$ 350 bilhões. Mas a realidade, e a necessidade de um padrão de segurança ainda maior do que em outras matrizes energéticas, dados os perigos da radioatividade, coloca em xeque tal otimismo.

Esse interesse já vinha ganhando corpo com a necessidade dos países de cumprir metas de redução de emissão de carbono. A energia nuclear é limpa, ainda que críticos apontem que o manejo do urânio usado como combustível deixe pegadas, e lembrem do risco de acidentes catastróficos.

Além disso, as guerras na Ucrânia e no Irã demonstraram o risco geopolítico associado a regiões produtoras de petróleo e gás natural.

Não que a AIEA não concorde com a promessa dos SMR, foco de diversos dos 42 países que hoje têm interesse em entrar no clube dos operadores nucleares, que reúne 31 nações com 415 reatores —o Brasil tem 2, que só geram 1,2% da eletricidade do país.

Trabalhos sobre regulação e segurança estão em curso, e há dezenas de estudos sendo tocados pela agência acerca da tecnologia. A AIEA não tem poder de veto ou sanção, trabalho de órgãos regulatórios nacionais, mas qualquer produto sem sua chancela não teria aceitação comercial.

Há hoje outros 7 reatores em fases distintas de construção no mundo, inclusive 2 do modelo da TerraPower de Bill Gates, contratado pela Meta para alimentar seus cérebros eletrônicos com quase 700 MW —o suficiente para até 1 milhão de casas.

Os reatores menores fazem parte do cálculo oficial da agência sobre o futuro da matriz nuclear, que hoje responde por 5% do mix energético global e 9% da produção de eletricidade.

Na projeção mais otimista, a AIEA vê a produção global de energia nuclear saltar de 377 GW para 992 GW em 2050, puxada por aumento de 24% nos SMR. Se o modelo só tiver um crescimento de 5%, o aumento vai parar em 561 GW.

Ainda assim, é um avanço, refletindo talvez o fim do temor com segurança decorrente do acidente de Fukushima, ocorrido após tsunami atingir seis reatores na costa japonesa e causar o deslocamento de 160 mil pessoas em 2011.

“Toda atividade humana pode causar danos, mas aprendemos a minimizar os riscos”, afirma o chefe da divisão de Segurança Operacional da AIEA, Juroj Rovny. Ele lembra que duas convenções sobre acidentes nucleares surgiram justamente do pior caso da história, a explosão do reator 4 de Tchernóbil, na Ucrânia soviética em 1986.

Fukushima deixou como legado uma elevação da barra no mercado. Rovny diz que o desenho das usinas não previa um tsunami tão intenso, com ondas de até 15 metros —o megaterremoto que o provocou não afetou os reatores, e sim linhas de transmissão supridas por geradores.

Além dos SMR, há diversas outras tecnologias em estudo, com destaque para reatores de fusão nuclear. Há hoje um investimento de US$ 10,5 bilhões em cerca de 80 startups focadas na promessa de energia ainda mais abundante. “É como a corrida espacial”, diz Ryan Wagner, o líder do setor na agência.

Mas os reatores menores são a estrela da vez. “Estamos analisando sua adoção”, relata Martin Pospisil, da Autoridade Regulatória Nuclear da Eslováquia.

Falando na usina de Mochovce, 200 km a leste de Viena, ele acredita que o consumo em seu país irá dobrar até 2050 —hoje, dois terços da eletricidade eslovaca vêm de três reatores lá e outros dois na planta de Bohunice.

Por ora, contudo, ali a solução é tradicional, com o quarto reator de Mochovce tendo sua ativação prevista para este ano, mas equipado com diversos sistemas ocidentais.

Na visita da qual a Folha participou, era possível ver maquinário da francesa Alstom na sala de turbinas, por exemplo. No coração da usina, contudo, o sangue também era russo: o combustível nuclear faz parte do estoque estratégico que a Eslováquia tem após décadas de cooperação com Moscou.

A Guerra da Ucrânia dificultou a compra do produto, ainda que o governo eslovaco tenha relações mais próximas do Kremlin que seus vizinhos. “Temos para muitos anos”, diz o guia dos jornalistas, Robert Holy, buscando afastar-se de polêmicas geopolíticas.

O jornalista viajou a convite da AIEA

T LB

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