A empresa Santos Brasil, maior operadora de contêineres do Brasil, quer que o projeto do túnel Santos-Guarujá, que está em fase preparatória para início de obras, tenha seu traçado alterado. Se o desenho atual da obra seguir sem mudanças, alega a companhia, haverá forte impacto logístico bilionário nas operações de seu terminal, o Tecon Santos, que é o maior do país dedicado a contêineres.
Segundo informações obtidas pela reportagem, a companhia não é contrária à construção do túnel, obra que pretende melhorar a mobilidade entre Santos e Guarujá, mas tem uma série de críticas sobre o desenho dos acessos previstos para a obra, que mexeria não apenas com a estrutura atual de carga, mas também seus planos de expansão.
Para a Santos Brasil, a configuração atual cria pontos permanentes de conflito entre o tráfego urbano e a intensa movimentação de caminhões que abastecem diariamente o terminal de contêineres.
A reportagem confirmou que o pedido foi formalmente apresentado neste mês à APS (Autoridade Portuária de Santos), à Artesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo) e à Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários).
A empresa chegou a fazer algumas estimativas preliminares sobre a perda operacional que poderia ter caso o traçado do túnel não seja alterado. Em um documento ao qual a Folha teve acesso, a Santos Brasil afirma que há risco de uma perda potencial de até 50% da capacidade do acesso rodoviário para o terminal, “colocando prejuízo na casa da dezena de bilhões” ao longo de seu contrato.
As simulações chegam a sinalizar que a redução permanente de 9,5% na capacidade operacional atual provocaria um desequilíbrio financeiro de R$ 1 bilhão.
O túnel Santos-Guarujá, que hoje é uma das principais obras de infraestrutura em desenvolvimento no país, é uma PPP (parceria público-privada) estruturada conjuntamente pelo Governo de São Paulo e o governo federal, que dividem a paternidade do empreendimento.
O projeto foi leiloado em setembro de 2025 e vencido pelo grupo português Mota-Engil e pela chinesa CCCC (China Communications Construction Company), que ficarão responsáveis pela construção, operação e manutenção da infraestrutura por 30 anos. O empreendimento prevê investimentos de R$ 6 bilhões, para construir uma travessia total de 1,5 quilômetro de extensão, com um trecho submerso de cerca de 870 metros.
Questionada pela reportagem, a Secretaria de Parcerias em Investimentos do governo de São Paulo confirmou o recebimento do pedido de mudança da Santos Brasil e disse que o caso “está sendo analisado tecnicamente”.
A gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que o projeto “foi desenvolvido com base em estudos técnicos e passou por consulta e audiências públicas, com participação de cidadãos, especialistas, empresas e demais interessados”, antes de ir a leilão.
“Eventuais contribuições e pleitos formais seguem sendo avaliados tecnicamente, conforme os trâmites previstos”, declarou o governo paulista.
A Santos Brasil declarou, por meio de nota, que seu objetivo é “contribuir tecnicamente” com o projeto do túnel Santos-Guarujá.
“A empresa entende a relevância e a legitimidade do empreendimento, mas propõe alternativas para melhoria do traçado na saída do túnel de forma a preservar as condições operacionais, logísticas e regulatórias indispensáveis ao funcionamento eficiente do Tecon Santos”, declarou.
O grupo português Mota-Engil não se manifestou até a publicação desta reportagem.
A obra terá impacto direto na mobilidade de mais de 20 mil veículos e milhares de passageiros que realizam diariamente a travessia que hoje é feita por balsas.
Atualmente, o projeto está na fase de elaboração dos projetos executivos, licenças complementares e preparação para o início das obras, previsto para 2027. É justamente nessa etapa que a Santos Brasil tenta mudar o desenho final do empreendimento.
Do outro lado está o Tecon Santos, que movimentou sozinho 16% de todos os contêineres do Brasil em 2025 e quase metade de todo volume de contêineres do próprio porto de Santos.
Hoje, o terminal funciona praticamente no limite de sua capacidade operacional, com taxa média de ocupação próxima de 90% no ano passado. A Santos Brasil alega que, por operar 24 horas por dia durante todos os dias do ano, qualquer interferência poderia gerar atrasos em cascata na produtividade do terminal.
Na avaliação da empresa, os impactos do desenho atual do túnel ocorreriam tanto na fase de construção, quanto na de operação permanente da travessia.
Como as obras devem atingir diretamente o único acesso terrestre ao terminal, a companhia fala em riscos de restrições operacionais recorrentes, aumento do tempo de espera dos caminhões e redução da capacidade de atendimento. A paralisação diária da operação é estimada em frustração de R$ 2,8 milhões em lucro pela empresa.
A maior preocupação, porém, está ligada ao cenário permanente, ou seja, depois da conclusão da obra.
Segundo a companhia, o traçado eliminaria faixas que hoje são usadas por caminhões, aumentando o tráfego sem ampliar a capacidade viária. Há, ainda, previsão de novas interseções nas vias e rotatórias em áreas próximas do terminal.
Um último ponto sensível do projeto envolve a expansão futura do terminal. A Santos Brasil trabalha em um projeto conhecido como “Prainha”, que prevê a ampliação em cerca de 33% da capacidade do Tecon Santos. O terminal recebe atualmente cerca de 2.560 caminhões por dia. Com a expansão, esse volume poderia subir para 3.340 veículos, com picos próximos de 4.200 caminhões diariamente.
A avaliação da empresa é de que o desenho atual do túnel “compromete de forma material a viabilidade funcional do arranjo proposto”, porque tem conflito direto com as áreas planejadas para a expansão.








