A justificativa do Copom (Comitê de Política Monetária) para cortar a taxa Selic na quarta-feira (17) não caiu bem entre agentes do mercado.
Para especialistas ouvidos pela reportagem , a comunicação foi confusa e não esclareceu
satisfatoriamente a decisão de continuar afrouxando a taxa básica de juros do país em um momento em que os índices inflacionários seguem subindo para além do teto da meta estabelecida pelo BC (Banco Central).
Isso, segundo eles, afeta a percepção do mercado sobre a chamada “função de reação” da autoridade monetária, isto é, a capacidade de um banco central de ajustar a política monetária aos indicadores econômicos.
“Há uma dissonância forte entre o diagnóstico do Copom e o remédio aplicado”, diz Alexandre Schwartsman, economista e ex-diretor do BC.
“O diagnóstico está correto: há um choque inflacionário sério decorrente da crise do petróleo, com outros riscos à frente [como o El Niño], e de uma economia superaquecida que se traduz na elevação da inflação no horizonte relevante. Mas a resposta foi inadequada, com uma justificativa frágil em várias dimensões.”
O Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, a 14,25% ao ano, como amplamente esperado pelo mercado. Foi o terceiro corte consecutivo desde março.
No comunicado divulgado após a decisão, o comitê afirma que, se mantivesse os juros em patamar necessário para levar a inflação à meta ao término de 2027, eles acabariam derrubando o índice para um patamar abaixo do alvo no primeiro trimestre de 2028 sem dizer quanto exatamente. O BC trabalha com a meta de inflação em 3% ao ano, com margem de 1,5 ponto percentual para cima e para baixo.
“Inflação cair abaixo da meta não é coisa de outro mundo. Faz parte da operação normal do regime de metas: ela ora fica abaixo, ora fica acima, mas flutua ao redor dos 3%. Esse é o primeiro ponto. O segundo é que é difícil acreditar que a inflação ficaria abaixo da meta no primeiro trimestre de 2028, se, ao fim de 2027, o BC projeta 3,7%. É um espaço de tempo muito curto para cair tanto assim”, diz Schwartsman.
As curvas de juros futuros se inclinaram em resposta à decisão do BC. Nos vencimentos para 2026, o movimento foi de baixa, refletindo a perspectiva de juros menores no curto prazo.
Nas curvas longas, a partir de 2027, porém, o movimento foi de alta de mais de 0,20 ponto percentual em alguns pontos. “Juros mais baixos hoje, com a inflação desancorada, exigem juros ainda mais altos no futuro”, afirma Lais Costa, especialista em renda fixa da Empiricus.
O vencimento para janeiro de 2029, por exemplo, avançou para 14,77%, alta de 0,24 ponto percentual em relação ao ajuste pré-Copom. A taxa para janeiro de 2035 avançou para 14,52%, avanço de 0,25 ponto ante a véspera.
Na prática, explicam os especialistas, o comitê estendeu o horizonte relevante para o primeiro trimestre de 2028 o que, na visão de Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management, é uma forma de mudar a meta sem admitir o ajuste.
“O horizonte não foi estendido por razões técnicas. Foi estendido para que a projeção coubesse na decisão que o Comitê já havia, implicitamente, tomado”, escreveu ela em artigo para a Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (18).
Alongar o horizonte, explica ela, não é neutro. “Quanto mais distante o ponto de chegada, menor a disciplina que o regime de metas impõe sobre as decisões correntes, maior a margem para acomodar desvios e mais frágil se torna o compromisso com a convergência”, afirma.
Essa percepção criou ruídos entre os agentes do mercado sobre a condução da política monetária e, em última análise, sobre a credibilidade do BC para continuar ancorando as expectativas de inflação.
A desancoragem das expectativas de inflação tem efeitos palpáveis na economia real.
Benito Salomão, professor de economia da Universidade Federal de Uberlândia, afirma que empresas precisam decidir qual será o preço de seus produtos e serviços nos próximos meses e, para isso, dependem de uma projeção de inflação.
“Elas podem escolher essa projeção baseada na meta do BC ou na inflação corrente. Se o próprio BC diz que a convergência só vai ocorrer à frente do prazo relevante, a firma não tem por que reajustar seus preços com base na meta. A razão de existência da meta é que as pessoas acreditem nela e reajustem seus preços baseados nela.”
Ainda, de acordo com Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, a taxa Selic não baliza o crédito de longo prazo na economia.
“Financiamentos para grandes empresas, crédito imobiliário e linhas de investimento estruturadas são precificados com base na curva de juros futuros, e não na Selic de hoje. Se a instabilidade na comunicação do Copom faz com que as taxas de mercado de longo prazo subam, o custo final do crédito para quem investe ou consome na ponta pode encarecer, ou, no mínimo, parar de cair”, afirma.
Os diretores do BC estão em período de silêncio após a decisão, como de praxe. Mas Gabriel Galípolo, presidente da autarquia, já chegou a dizer anteriormente que “existem grandes campeonatos de interpretação de texto a cada decisão do Copom, que envolvem entender se uma vírgula mudou de lugar, alguma coisa nesse sentido”.
O mercado agora aguarda a próxima terça-feira, dia de divulgação da ata da reunião, em busca de esclarecimentos sobre a confusão criada pelo comunicado.
Gustavo Danilo, especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, lembra que a credibilidade de um banco central não se perde em um único dia, mas tende a ser testada quando a comunicação parece enevoada.
A ata será importante neste cenário. “O mercado quer ver se o Copom vai reforçar o compromisso em cumprir a meta e condicionar os próximos passos ao ritmo inflacionário, assumindo até uma possibilidade de manutenção ou mesmo de alta da Selic”, afirma.
“Se o Copom se mantiver ambíguo e sem direção, vamos ver mais prêmios de riscos nos juros e até nas NTN-Bs [títulos públicos ancorados na inflação, com ganho real]”.








